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Porto Seguro

Marise Ribeiro

 

Em meu interior havia procelas, tormentas,

Inundando com fúria a alma em agonia

Fazendo-me lutar com o leme na incerteza

Se um dia daria bom rumo nessa vida vazia.

 

Olhava as estrelas, e não via a noite,

Navegava contra a maré sem atingir o horizonte,

Percorria portos sem direito a pernoite,

Minhas verdades sofriam sempre um desmonte.

 

Singrei por muitos anos mares bravios,

Navegante solitária de desafios,

Até que o farol do meu coração iluminou um cais

De um amor do qual não desatracarei jamais.

 

Deste-me terra firme, um porto seguro,

Tiraste-me do profundo abismo escuro.

Hoje, tenho a ti e a brisa que nos acaricia,

Nossa nau flutua ao sabor da calmaria.



Escrito por Markos Goldenblatt às 06h25
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Amar em tempos de incerteza

 

O verbo amar é cada vez menos conjugado pelos indivíduos da contemporaneidade. Contraditório isso, uma vez que vivemos a efervescência das subjetividades humanas até mesmo nas Ciências Sociais e Humanas. Talvez a questão esteja na multirreferencialidade a qual estamos sujeitos na sociedade da instantaneidade, da fugacidade, da efemeridade e de tantas outras adjetivações correlatas.

 

Ao tomar o conceito de amor como “uma atitude de caráter” de modo a não se contrapor completamente a idéia de amar a partir de objetos referenciais (daí as várias formas de amor), é possível dizer que o contexto social no qual estamos inserido, que poderíamos chamar de “sociedade do espetáculo”, nos leva a desnaturalizarmos o amor enquanto essência do viver e ressiginificá-lo no plano do episódico, de forma estanque.

 

Em outras palavras, somos levados a sentir, a nos sensibilizarmos apenas quando estimulados midiaticamente. Isto é, todos os dias vivemos ou presenciamos as mesmas realidades apresentadas na TV, porém é como se tudo que chegou aos nossos sentidos cotidianamente foi filtrado por nossa percepção de modo a não nos “perturbar” psicologicamente. Somos vacinados para enfrentar a realidade social, mas nos desmanchamos diante dos apelos sensacionalistas da mídia. Até certo ponto, esse processo de resistência emocional é necessário porque senão todos seriamos depressivos. Mas há um limite!

 

Transpondo isso para a realidade da afetividade, das relações afetivas, temos algo parecido. Embora seja preciso relativizar o sentido do amar sexualmente falando, hoje, ainda assim é possível evidenciar seus “desvios”.

 

Não querendo ser moralista, nem o sou, acredito que o fundamental das relações atualmente é a ética, entendendo-a como a felicidade comum. Daí suscitamos o conceito de respeito mútuo e liberdade.

 

Somos agraciados atualmente por formas relacionais mais liberais, podemos conhecer várias pessoas, com elas nos relacionarmos e até “ficar”. Isso é bom do ponto de vista de ampliarmos o viver sexual, o prazer, o desejo, a fantasia. O problema coloca-se na sua intensidade e na capacidade de libertar-se dessa condição a fim de construir algo mais sólido. Como afirma Goethe, sem amor não há encontro, não há diferença, resta a escuridão do individualismo, do ser incapaz de relação. Se o amor não garante a felicidade, a solidão e o individualismo muito menos.

 

A questão, portanto, refere-se a superposição do sexo ao amor, aquele em detrimento deste. E o pior, às vezes isso é transposto às relações afetivas de namoro, casamento, etc. É justamente ai que precisamos resgatar o principio ético, uma vez que buscar a minha felicidade pressupõe no respeito ao sentimento alheio. Nisso somos livres para decidir, tomar decisões. O que não podemos é criar condições.



Escrito por Markos Goldenblatt às 06h21
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